19 de Setembro de 2016

Por que o cuidador deve manter a saúde em dia?

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A pessoa que assume os cuidados de um familiar idoso pode não se enxergar como um cuidador, mas apenas como alguém que toma conta de alguém que ama, sejam pais, avós ou companheiro com algum tipo de incapacidade. Mas, sim, se você cuida de alguém de maneira permanente, você é um cuidador.

A questão de assumir-se como um cuidador é importante, já que há uma série de implicações nessa tarefa. Cuidar de um idoso com algum tipo de limitação física ou cognitiva exige tempo, dedicação, conhecimento sobre a doença e, muitas vezes, força muscular para tirar o paciente da cama, trocar fralda e dar banho no leito, entre outras tarefas.

Ser um cuidador não é uma função fácil, e muitos familiares assumem essa tarefa, seja porque não confiam em um terceiro para prestar esses cuidados ou mesmo por falta de condições financeiras para contratar um profissional.

A maioria dos familiares que assume essa tarefa se vê no papel de cuidador de uma hora para outra – após o ente querido sofrer um acidente vascular cerebral (AVC), desenvolver doença de Alzheimer ou tantas outras condições inesperadas. E é assim que muitas pessoas acabam com seu dia a dia tomado pelos cuidados por outra pessoa. Como consequência, frequentemente a própria saúde é deixada de lado e os momentos de lazer ou atividades consideradas “menos importantes” são abandonados em prol do bem-estar do parente.

Toda essa dedicação pode ter um alto custo para a própria saúde. Depressão, estresse, crises de ansiedade e doenças osteoarticulares por carregar peso são os problemas mais comuns apresentados por cuidadores, segundo Naira Dutra Lemos, assistente social e especialista em Gerontologia, do Ambulatório para Cuidadores da Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).O serviço coordenado por Naira, único no Brasil, acompanha a saúde dos cuidadores de idosos atendidos no ambulatório da universidade e no Programa de Assistência Domiciliar ao Idoso. “O ambulatório nasceu porque observávamos o grau de stress dos cuidadores de idosos que, de uma hora para outra, se viam lidando com um familiar que se tornou dependente. E, não raras vezes, o próprio cuidador também é um idoso”, conta Naira.Outros estudos científicos realizados no Brasil indicam problemas ainda mais graves.

Artigos de pesquisadores da área de Enfermagem listam AVC, dores musculares, cefaleias constantes, insônia e hipertensão arterial como problemas de saúde que acometem os cuidadores familiares de idosos. Somem-se a esses itens o isolamento social decorrente do acúmulo de responsabilidades e distúrbios comportamentais.

A psicóloga Maria Elizabeth Bueno Vasconcellos, especialista em Gerontologia, sabe bem o que é passar por isso. No final de 2009, seu pai sofreu um AVC que comprometeu os movimentos do lado direito do corpo, a visão e a fala. Foi assim que ela e sua mãe tornaram-se cuidadoras do pai. Mesmo especialista em Gerontologia, Elizabeth enfrentou dificuldades. “Não estávamos preparadas, nem eu e nem minha mãe, para lidar com uma pessoa doente e suas necessidades específicas”, explica.

A partir dessa experiência pessoal, ela se uniu a outras profissionais e criou um curso para orientar cuidadores de idosos, chamado “Boas práticas para atenção à pessoa idosa”. O curso aborda as questões mais comuns relacionadas ao envelhecimento, as doenças mais frequentes e promove a troca de experiências entre cuidadores, sejam eles familiares ou profissionais. Desde 2012, 2.500 pessoas já passaram pelo curso de Elizabeth.Uma pesquisa feita em 2006 com cuidadores de idosos da família apontou que 22,5% deles disseram não ter tempo para cuidar de si mesmos; 43,1% tiveram que reduzir seu tempo de diversão; 33,6% relataram estar sempre cansados; e 22,4% dos cuidadores tinham percebido sua saúde prejudicada.

O primeiro desafio, portanto, que Naira enfrenta para “cuidar” dos cuidadores é conseguir convencê-los de que precisam de ajuda e que eles necessitam de um tempo para si mesmos.

A falta de conhecimento sobre a doença e as perspectivas de vida do familiar agravam o estresse sofrido pelo cuidador. “Alguns precisam apenas de uma orientação sobre o estado de saúde do paciente com o qual está lidando; outros precisam de terapia ou de orientação sobre como será sua vida após a morte do parente”, explica.Alguns dos cuidadores atendidos por Naira deixam seus empregos e outras ocupações para cuidar do paciente idoso e, depois que este morre, passam a não ver sentido mais em suas vidas ou não conseguem recomeçá-la. “Não são raros os casos de depressão e alcoolismo não só pelo luto, mas pela falta de perspectiva de futuro”, diz a profissional.

E embora o cuidador se esmere para fazer o melhor para o idoso, é fundamental, segundo as especialistas, que ele cuide de si. “Essa é a premissa para cuidar do outro. Ele precisa estar bem ou simplesmente não dará conta”, diz Naira.Por isso, as gerontólogas Naira e Elizabeth dão algumas dicas para os cuidadores manterem sua saúde em dia:• Reconheça que ser cuidador não é tarefa fácil – Por mais que você ame a pessoa de quem está cuidando, é difícil mudar de vida para dedicar-se a alguém. Toda mudança de rotina pode ser estressante, ainda mais envolvendo a saúde de quem se ama.• Cuide de sua saúde – Sempre que possível, descanse.

Se puder, contrate um profissional para ajudar nos cuidados nem que seja periodicamente. Se a condição financeira da família não permitir, tente tirar “folgas”. Peça a outro familiar, amigo ou vizinho de confiança para ficar com o idoso por algumas horas para você ter um tempo para si: seja para ir ao médico, dar um passeio ou tirar um cochilo com a certeza de que o idoso está sendo bem cuidado.• Busque informação – Conhecer a doença e a perspectiva de vida da pessoa enferma ajuda muito. Isso permitirá que você tome decisões sobre sua vida pessoal, profissional e financeira. Não tenha vergonha de tirar todas as dúvidas com os médicos e equipe de saúde que cuida de seu familiar.

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