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Entendendo aIncontinência

“O envelhecimento deve ser discutido ainda hoje”

26 de Agosto de 2020
TENA

Em entrevista exclusiva, a antropóloga Mirian Goldenberg afirma que a chegada da idade é descobrir um novo estilo de vida e critica o tratamento aos que têm acima de 60 anos vislumbrados na Pandemia da Covid-19

O passar dos anos é representado pela aquisição de experiências, vivência de momentos e a construção de um legado que será lembrado por muito tempo. Ao chegar na famosa “terceira-idade”, muita gente se dá conta de que não é preciso ficar preso aos números para continuar vivendo e aprimorando sua história. Essa é a chamada geração “ageless” ou “sem idade”, em tradução livre.

Como entender o termo ageless? Como ele surgiu e o que realmente significa? Explicamos: Mirian Goldenberg, antropóloga e escritora, estuda há mais de vinte anos a relação entre envelhecimento e felicidade. Ela ressalta que o termo pode ser utilizado para resumir que “não é um rótulo que define as pessoas”. E ainda acrescenta: “quando alguém diz: ‘agora sou um velho de 60 anos e eu não posso fazer isso ou aquilo’, é totalmente o contrário o que o termo define. É uma opção em adotar uma vida sem restrições em função de um número”.

Mas, antes de se declarar um ageless, ou fazer algo impensado, é preciso adaptar-se ao envelhecimento. Ela diz que alguns ensinamentos, durante as duas décadas de estudos, mostraram meios para se alcançar uma “terceira-idade” com mais qualidade. Um dos livros de Mirian, “A bela velhice”, aborda os assuntos relativos ao processo de envelhecimento e como torná-lo mais leve, e tornou-se uma expressão recorrente nas discussões sobre o tema “eu compreendi, em todos os anos de estudos e pesquisas, que para alcançar uma bela velhice é importante ter projetos de vida, cultivar os bons amigos e, principalmente, sentir-se útil. A vida precisa de significado em todas as suas fases. Todos seremos velhos, hoje ou amanhã, então construir uma velhice com significados representará um estilo de vida mais livre, leve e feliz.”

Ser velho em meio ao coronavírus

A pandemia de coronavírus provocou a atenção de todo o mundo para se proteger, manter cuidados higiênicos, evitar aglomerações e outras recomendações importantes para que se evite a contaminação. Por outro lado, segundo Mirian, “a face mais perversa” dessa situação foi revelada no que diz respeito ao respeito com os “velhos” do Brasil.

Não foram poucos nem impopulares os discursos pejorativos para atacar os mais velhos desde que foram divulgados os riscos da doença e seus grupos de risco. Frases como: “vamos deixar os velhos em casa”, “só vão morrer os mais velhos, que já viveram muito” e “os jovens precisam trabalhar, não vamos parar por conta dos mais velhinhos” demonstram, segundo a antropóloga, um discurso em que “os velhos são considerados inúteis, desnecessários e invisíveis”, quando são eles quem criam um grande movimento de solidariedade, empatia e respeito no momento mais delicado que vivemos.

Por fim, Mirian diz que os “velhofóbicos”, em sua maioria acima dos 60 anos, precisam entender que “a única categoria social que une todo mundo é ser velho. A criança, ou o jovem de hoje, serão os velhos de amanhã”.

Precisamos discutir o envelhecimento ainda hoje. O fato é que todos serão velhos, hoje ou amanhã, e isso deve ser respeitado e compreendido de uma maneira natural. Criar a “bela velhice”, como Mirian Goldenberg define, é provar que os números não representarão privações, mas sim experiências e um novo estilo de vida que se inicia a partir do momento em que você se entende como “velho”.